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quinta-feira, 6 de dezembro de 2018
Conflitos antigos da atualidade
https://www.campograndenews.com.br/artigos/para-compreender-os-conflitos-entre-fazendeiros-e-indigenas-em-ms
quarta-feira, 5 de dezembro de 2018
A arte Kadiwéu
ÍNDIOS KADIWÉU
ARTE
Os finos desenhos corporais realizados pelos Kadiwéu constituem-se em uma forma notável da expressão de sua arte. Hábeis desenhistas estampam rostos com desenhos minuciosos e simétricos, traçados com a tinta obtida da mistura de suco de jenipapo com pó de carvão, aplicada com uma fina lasca de madeira ou taquara. No passado, a pintura corporal marcava a diferença entre nobres, guerreiros e cativos.
As mulheres Kadiwéu produzem, igualmente, belas peças de cerâmica: vasos de diversos tamanho e formato, pratos também de diversos tamanhos e profundidade, animais, enfeites de parede, entre outras peças criativas. Decoram-nas com padrões que lhes são distintos, que segue a um repertório rico, mas fixo, de formas preenchidas com variadas cores. A matéria-prima de seu trabalho encontram-na em barreiros especiais, que contêm o barro da consistência e tonalidade ideais para a cerâmica durável. Os pigmentos para sua pintura são conseguidos de areias dos mais variados tons, alguns dos detalhes sendo envernizados com a resina do pau-santo.
Podemos também ver a arte Kadiwéu expressa nos cânticos das mulheres velhas, nas músicas dos tocadores de flauta e tambor, e nas danças coletivas.
CULTURA
A sociedade Kadiwéu teve na guerra de captura o fundamento de sua organização. A memória da guerra é bastante presente e acionada sempre nos discursos de auto-definição, bem como fonte de recursos a serem usados na sua relação atual com a sociedade nacional.
Um marco de peso na história do contato com a sociedade nacional, recordado com orgulho e insistência, foi a participação dos Kadiwéu na Guerra do Paraguai. Esta participação rendeu o seu registro em inúmeras narrativas históricas que lembram detalhes do evento e um desempenho heróico guardado com cuidado. Contam os Kadiwéu sua fundamental participação naquela guerra, quando lutaram em favor dos brasileiros e ganharam como recompensa o território que habitavam e onde até hoje habitam. É aí que buscam o argumento mais eficaz de sua posse incontestável, mas sempre ameaçada.
Dentre o seu rico repertório, os Kadiwéu distinguem pelo menos duas classes. A uma delas chamam de "histórias de admirar", ou "histórias que fazem milagres", "histórias sagradas", mais próximas da categoria de mitos propriamente ditos. Outra classe seria a das "histórias que aconteceram mesmo", que se apresentam como "descrição histórica" de eventos tais como as guerras do passado.
É nas "histórias de admirar" que os Kadiwéu vão buscar seus nomes pessoais chamadas de "mitos de nominação". Muitos destes mitos são de propriedade de famílias de capitães, e os nomes pessoais que deles advêm podem ser usados por seus descendentes e cativos. Em muitas destas histórias, os protagonistas são ancestrais mitológicos de famílias de capitães.
Algumas outras contam também com personagens míticos ancestrais de cativos, cujos descendentes lhes usam os nomes. Nestes mitos estão contidos ensinamentos, conselhos e prescrições. Cada um vem a explicar e a prescrever um costume: o ato da guerra de captura de crianças, a iniciação feminina, o uso da bebida feita do mel, determinados remédios, tabus alimentares. O mito de criação, também incluído nesta categoria, fala do início da sociedade Kadiwéu e daquilo que a distingue das demais sociedades com que mantêm ou mantiveram contato, tecendo comentários sobre as mesmas e sobre esta relação.
- Fonte: https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Kadiw%C3%A9u. Acesso em 05 Dez 18.
Os Terenas de Buriti
OS TERENA DE BURITI: FORMAS ORGANIZACIONAIS, TERRITORIALIZAÇÃO E REPRESENTAÇÃO
DA IDENTIDADE ÉTNICA
PEREIRA, Levi Marques. 2009. Os Terena de Buriti: formas organizacionais, territorialização e representação da identida- de étnica. Dourados: Editora UFGD. 170p.
alar e escrever sobre os Terena é recuperar um importante ca- pítulo da história da antropologia brasileira, como certa vez
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ponderou Roberto Cardoso de Oliveira (2002). Os Terena, representantes mais meridionais dos povos de língua e cultura aruaque no Brasil, aparecem na literatura antropológica espe- cializada a partir do final dos anos 40, embora os relatos de cronistas, literatos e viajantes sejam anteriores a este período. A primeira grande referência que se tem dos Terena, esta anterior ao século XX, dá conta da sofisticação agrícola e da disposição à convivialidade e ao associativismo com os povos que lhes são estrangeiros, atributos coextensivos à estrutura social indígena.
A literatura e a própria oralidade indígena sugerem que no passado os Terena teriam se confederado aos aguer- ridos Guaicurú, a fim evitar as invasões inimigas às aldeias e o saque dos roçados. Em troca de proteção militar os Terena, que se autodenominam Poké’e (gente da terra), abasteciam os Guaicurú com mandioca, milho e outros produtos da lavoura. Sensível a essas características, que aliás são anteriores ao even- to do contato, é possível até mesmo avistar, ainda que a título de hipótese, o interesse dos Terena pelo mundo dos brancos como uma transformação estrutural, embora não seja esse o propósito de Os Terena de Buriti.
O Livro Os Terena de Buriti, do etnólogo Levi Pe- reira, recupera as reflexões de um trabalho de investigação pericial desenvolvido na Terra Indígena Buriti em razão de litígio fundiário envolvendo um coletivo Terena. Trata-se de uma tentativa de revisão do produto etnográfico do autor que, em parceria com o historiador Jorge Eremites de Oliveira, visi- tou aldeias Terena localizadas nos municípios de Sidrolândia e Dois Irmão do Buriti, Mato Grosso do Sul. Dividido em cinco capítulos, este livro se inclui de modo muito bem vindo a um “movimento de renovação na etnografia Terena” (p. 32).
No capítulo inicial, Pereira realiza uma breve revisão bibliográfica das principais etnografias sobre os Terena, enfa- tizando os trabalhos de Kalervo Oberg e de Roberto Cardoso de Oliveira. O autor aponta as principais lacunas deixadas pe- los clássicos, dentre elas a inclusão dos Terena na rede de povos de língua e cultura aruaque, e a descrição adequada da organi- zação social e da sociocosmologia indígena, tópicos ofuscados pelos temas de aculturação e mudança cultural. Na segunda parte, realiza uma crítica à hipótese sustentada pelos clássicos que inadmite a presença Terena na região como fato anterior ao século XIX.
O segundo capítulo se destaca pela crítica nativa ao conceito ocidental de aldeia, cujo debate recai sobre o conceito Terena de tronco. Inspirado na critica do material melanésio ao problema geral dos conceitos proposta por Strathern (1988), e auxiliado pelo método genealógico de Rivers, Pereira sugere que a aldeia aparece como uma configuração de troncos. O tronco é uma clara expressão da chefia hereditária. O tronco, ou kurú, se aplica a uma parentela bilateral reunida por rela- ções de consangüinidade em torno do Big Man, e cuja relação com outros troncos configura uma aldeia.
O terceiro capítulo, o mais importante do livro, ou pelo menos o mais citado, é apresentado pelo autor como um “ensaio exploratório” (p. 85) sobre os componentes essenciais do ethos Terena. Pereira sugere que os Terena possuem uma “feição típica, facilmente identificável pelos integrantes desse
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grupo étnico” (p. 83), cuja explicação se daria fora do para- digma interétnico. A inclinação à flexibilização e adaptação frente a outras socialidades e outros atributos relacionados a uma estética social do cotidiano, para lembrar Joanna Ove- ring (1999), explica a primazia da convivialidade e diplomacia sobre a predação e o conflito enquanto princípios básicos de ordenamento da vida social.
A inspiração para a formulação do conceito de ethos curiosamente não procede de Gregory Bateson (1958), mas do sociólogo Norbert Elias e seus estudos sobre a sociedade de cor- te francesa. Pereira sugere que a “formação social” dos Terena (hospitalidade, cordialidade, fino trato, maneira amena de fa- lar) se aproxima, enquanto tipologia, da sociedade de corte (p.
96). O conjunto desses componentes daria forma ao ethos, cujo lócus estaria no plano do gesto e da etiqueta (p. 103).
O quarto capítulo também explora outro tema de fundamental importância: a relação com a exterioridade. Os Terena nunca negaram o interesse por uma vida integrada ao mundo dos brancos, fato que chamou a atenção de muitos an- tropólogos interessados nos paradigmas de aculturação. Mais uma vez Pereira se afasta dessas formulações, buscando possí- veis respostas não na nação, mas no mundo vivido indígena. O autor nos remete às redes de relações mantidas com os Guai- curú no Chaco, para mostrar que a facilidade dos Terena em contrair boas relações com o exterior é anterior ao contato com os brancos, e que por isso não se explica apenas por esta via.
O quinto capítulo atende a dois grandes debates: a construção da identidade em cenário interétnico, e a socio- cosmologia indígena. A primeira parte fica por conta de uma reflexão sobre o problema da tradição a partir do contexto da modernidade. Mas o ponto forte do capítulo se concentra na segunda parte, onde o autor recupera importantes elementos da sociocosmologia Terena. O discurso de Dona Senhorinha, uma especialista religiosa, revela uma sofisticada cosmologia povoada pelos Natiacha [naati: chefe; acha: mato], uma cate- goria de seres espirituais que gerenciam a caça e a relação com
o animal, uma interessante teoria indígena da natureza e da cultura infelizmente ainda pouco explorada pelos etnólogos.
Os Terena de Buriti é antes de tudo sensível ao mun- do vivido indígena. Sem dúvida um importante incentivo para a nova etnologia Terena, cujo foco tem se voltado cada vez mais para temas pouco explorados pelos clássicos, tais como a noção de pessoa, a onomástica, o parentesco e a produção dos corpos e das substâncias. À guisa de conclusão, entretanto sem a pretensão de esgotar o assunto, saliento que além de contribuição à etnologia sul americana, Os Terena de Buriti é também boa literatura. O leitor encontrará não apenas im- portantes insights, mas também o rigor e a sensibilidade do trabalho de um etnólogo bem (in)formado.
Referências
BATESON, Gregory. Naven. California: Stanford University Press, 1958. OLIVEIRA, Roberto Cardoso de. Os Diários e suas Margens: viagem aos
territórios Terêna e Tükúna. Brasília: Ed. da UnB, 2002.
OVERING, Joanna. Elogio do Cotidiano: a confiança e a arte da vida social em uma comunidade amazônica. Mana, Rio de Janeiro, v. 5, n. 1, 1999.
STRATHERN, Marilyn. The Gender of the Gift: problems with women and problems with society in Melanesia. Berkeley: University of California Press, 1988.
PATRIK THAMES FRANCO
Mestre em Antropologia Social pela Universidade de Brasília
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domingo, 2 de dezembro de 2018
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